Cidades

Sistema de transporte público de Seul é exemplo para as grandes cidades

O  Blog Mundo Possível comemora um ano na rede com estreia no JC Online, novo visual  e a publicação da série Coreia do Sul: a Ásia sustentável. A primeira reportagem mostra o sistema de transporte público de Seul, considerado referência pela Organização das Nações Unidas.

Por Antônio Martins Neto

Nos dois anos em que morou em Seul, o brasileiro Virgílio Lamaignere foi um usuário assíduo do transporte público. Dava aulas de inglês em domicílio e cruzava a cidade várias vezes por dia. “Usava mais metrô que ônibus, mas de todo jeito a viagem não chegava a uma hora”, lembra.

Muito tempo? Seul é a sétima maior cidade do mundo, e quase metade dos 22 milhões de habitantes da área metropolitana tem carro. Tanta concentração de automóvel e de gente deixa o trânsito lento, capaz de tirar do sério o mais zen dos orientais.

Mas o brasileiro deu sorte. Ele chegou a Seul em 2007, quando a capital da Coreia do Sul já era referência em transporte público e o sistema integrado de metrô e ônibus, lançado três anos antes, permitia ao usuário circular pela cidade com rapidez, deixando para trás uma legião de motoristas paralisados em engarrafamentos quilométricos.

Mudança

A virada do transporte público de Seul começou no dia primeiro de julho de 2004, data em que o então prefeito e hoje presidente sul-coreano Lee Myung-Bak lançou o novo sistema, baseando-se em três pontos: construção de corredores de trânsito rápido para ônibus, coordenação dos serviços de ônibus e de metrô e integração dos sistemas de tarifas e de bilhetagens entre as rotas.

Além disso, todas as 400 linhas de ônibus foram divididas em quatro grupos, identificados por cores. Saíram, portanto, a cor e a logomarca das empresas viárias e entraram as cores dos grupos na carroceria dos veículos.

Hoje, ônibus azuis, amarelos, verdes e vermelhos, de propriedade privada, cortam Seul, num sistema administrado pelo setor público.

Os azuis fazem rotas de longa distância e de forma expressa, conectando um subúrbio a outro e esses ao centro.

Os veículos verdes cumprem trajetos dentro da região metropolitana e alimentam as estações de metrô e os pontos de ônibus expressos.

Os amarelos trafegam dentro do centro de Seul, enquanto os vermelhos são destinados a viagens de longa distância, conectando as cidades satélites ao centro da capital sul-coreana.

E para atender à fixação dos coreanos por tecnologia, todos os veículos têm GPS, o que permite às autoridades monitorarem a velocidade e a localização dos ônibus.

As informações são repassadas via celular e em tempo real para o usuário, que do Iphone – a loja virtual da Apple tem até um aplicativo só para o transporte público de Seul – pode saber quanto tempo falta para o ônibus chegar ao ponto e qual a melhor rota ou conexão escolher.

Todo esse sistema está integrado ao metrô, cujas dez linhas somam 286 quilômetros, interligam 265 estações e transportam 4,4 milhões de pessoas por dia, muitas delas de outros países.

“As linhas de metrô também são distinguidas por cores, o que facilita não apenas para o povo coreano, mas também para os muitos estrangeiros que estão vivendo aqui”, diz a brasileira Beth Kang Kim, há oito anos na Coreia do Sul.

A exemplo do conterrâneo Virgílio, Beth ensina inglês e prefere o metrô ao ônibus nas suas idas e vindas entre uma aula e outra.

“Acho incrível, pois o metrô é pontual, tem trem a cada cinco minutos, não atrasa nem um minuto”, diz a professora.

“Os ônibus também são quase pontuais, geralmente o intervalo é de 10 minutos, mas podem atrasar até três minutos”, compara.

Além da pontualidade, o sistema de tarifas e bilhetagem é outra vantagem para o usuário, que paga a passagem de ônibus e de metrô com cartão magnético.

A viagem é cobrada pela distância, não importando se o passageiro vai pegar ônibus, metrô ou os dois juntos, e o cartão oferece desconto se carregado a cada mês.

“Como se usa o mesmo cartão para embarcar em ônibus e metrô, isso facilita para o passageiro, que  não tem de andar com múltiplos tickets”, diz a estudante universitária brasileira Maíra Siqueira Maranhão.

Os cartões e tickets são comprados e recarregados tanto em estações e terminais quanto em drogarias e lojas de conveniência.

“O fato de se comprar facilmente os tickets diários ou os cartões permanentes em máquinas  e da recarga ser extremamente simples e rápida são também pontos positivos do sistema”, completa.

Mas nem tudo foi perfeito para a brasileira, que morou todo o ano de 2009 em Seul e estudou coreano na Universidade KyungHee.

“A circulação [de metrô] para completamente depois da meia noite e nos deixa reféns do táxi para tudo, o que em uma cidade tão grande sai muito caro”, reclama.

“Já os ônibus, apesar de terem uma faixa exclusiva, muitas vezes demoram demais pra passar.

Além de mudar a forma de cobrar pela viagem, a agência que administra o transporte público de Seul também mudou o sistema de remuneração das empresas de ônibus.

Agora elas são pagas por quilômetro servido e não por passageiro transportado, como ainda ocorre no Brasil.

Segundo as autoridades, a alteração fez com que os motoristas aliviassem o acelerador e tivessem mais paciência com pessoas idosas e portadoras de deficiência.

Aprovação

Preocupadas com as reações negativas ao novo sistema, as autoridades passaram a medir o nível de satisfação da população já no primeiro dia de funcionamento.

Os números iniciais foram preocupantes, com 70% de insatisfação na semana da mudança.

A pesquisa mostrava ainda que 60% dos usuários estavam confusos, sem conseguir associar as cores dos ônibus às rotas e com dificuldade para usar a nova bilhetagem eletrônica.

“Na época, muita gente foi contra, mas depois todos ficaram satisfeitos”, lembra Beth Kang Kim.

As autoridades acompanharam a mudança de perto e quatro meses depois veio a virada: 90% da população se diziam muito satisfeitos com o novo sistema de transporte público de Seul e a velocidade das viagens era o aspecto mais elogiado.

Caos

A reforma do sistema de transporte público de Seul foi forçada por uma realidade marcada por congestionamentos, acidentes de trânsito, poluição atmosférica e sérios cortes financeiros, principalmente depois da crise da Ásia, em 1997.

Na segunda metade do século passado, a cidade foi uma das que mais cresceu no mundo, acompanhando o desenvolvimento do país e quadruplicando a população entre 1960 e 2002.

A renda per capta aumentou a taxas surpreendentes, passando de 311 dólares em 1970 para 12.531 dólares em 2002.

E se há 40 anos um em cada mil coreanos tinha carro, em 2003 essa taxa subiu para 215 proprietários em cada grupo de mil habitantes.

O resultado foi o inchaço de gente e de veículos na capital do país, cuja região metropolitana concentra quase metade da população nacional e tem uma das maiores densidades geográficas do mundo, com 16.500 habitantes por quilômetro quadrado.

Limpa

Apesar da grande quantidade de gente, carro, congestionamentos e poluição atmosférica gerada pelos escapes dos automóveis – segundo a Organização das Nações Unidas, 23% dos gases de efeito estufa são emitidos pelo setor de transporte –, Seul quer se consolidar no mundo como uma cidade limpa, saudável e verde.

Uma das medidas é substituir todos os ônibus movidos a combustível fóssil por veículos a gás natural até o final deste ano, com a meta de reduzir a emissão de carbono da cidade em 10% até 2012.

Para isso, a prefeitura conta com a ajuda do Ministério da Segurança e Administração Pública, que tem investido pesado em sustentabilidade ambiental.

Só para incentivar o uso da bicicleta, por exemplo, estão sendo destinados dez bilhões de dólares.

O projeto prevê a construção de 3.114 quilômetros de ciclovia por todo país, além da implantação de estacionamentos, sinalização e oficinas para reparo e manutenção.

Faça um passeio pela via expressa, exclusiva para ônibus, em Seul

http://www.youtube.com/v/TgVE6iL850U?fs=1&hl=pt_BR

Os ônibus que circulam por Seul são divididos em quatro grupos, identificados pelas cores

Conectam um subúrbio a outro e esses ao centro, fazendo rotas de longa distância de forma expressa.
Circulam dentro da região metropolitana, conectando estações de metrô e pontos de ônibus expressos.
Circulam pelo centro de Seul
Fazem viagens de longa distância entre as cidades satélites e o centro de Seul.



http://www.youtube.com/v/uc8e2XSByUg?fs=1&hl=pt_BR

Vídeo da Prefeitura de Seul sobre o sistema de transporte público (em inlgês)

Seul lança ônibus elétrico online

Em março deste ano, a cidade de Seul inaugurou um ônibus elétrico online. O sistema opera com energia elétrica fornecida por cabos instalados abaixo da rua e transmitida de forma magnética. Não há contato entre os cabos e o veículo, que pode ser abastecido mesmo em movimento. Criado pelo Korea Advanced Institute of Science and Technology (KAIST), o veículo tem um vagão e três carros de passageiros e por enquanto circula por 2,2 km em torno do zoológico do Seoul Grand Park.

As 10 linhas do metrô de Seul têm 265 estações, somam 286,9 Km e transportam 4,4 milhões de pessoas

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